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Agressão entre aluno e professor é apenas uma face do problema

03/08/2019 06:00

Autor: Cintia Ferreira


Lombardi cita que escola repercute os processos da sociedade, como a violência Foto: JB Anthero/ Arquivo

Doutor em Educação pontua que medidas de combate passam por uma transformação na sociedade

Casos de agressão nas escolas, sejam contra professores ou mesmo entre alunos, chamam a atenção justamente por se tratar de um ambiente em que deveria imperar a educação. O Centro do Professorado Paulista (CPP) local divulgou números de ações na Justiça que ocorrem a partir da violência escolar e adoecimento dos professores. No município, um programa será lançado com foco da educação pela Paz.

José Claudinei Lombardi, o Zezo, é graduado em Ciências Sociais e doutor em Educação, na área de Filosofia e História da Educação pela Unicamp, onde é professor. Também foi secretário municipal da Educação nos anos de 2013 e 2014. Estudioso da área, ele comenta que a escola é parte integrante da sociedade e que nela repercutem todos os processos que ocorrem na sociedade em geral.

Segundo ele, problemas já ocorriam no passado. Medidas de combate desses quadros passam por uma transformação na sociedade. "A escola precisa ser parte integrante da comunidade e esta deve assumir, por meio de coletivos de pais de alunos, corresponsabilidade na formação das novas gerações".

O aumento das agressões e adoecimento dos professores têm relação?
Não há uma relação necessária e causal entre o aumento dos casos de agressão a professores e o crescimento dos problemas emocionais de professores. Entendo que devem ser tratados como duas questões: por um lado, o adoecimento docente; por outro a violência na escola. A escola é parte integrante da sociedade e nela repercutem todos os processos que ocorrem na sociedade em geral. Há desenvolvimento tecnológico? Tal qual na sociedade, ele também chega à escola. Há transformações no mundo do trabalho? O mesmo processo também ocorre no trabalho pedagógico. Com a violência não é diferente, ela penetra por todos os poros da escola e o aumento dos casos de agressão envolvendo alunos e professores é apenas uma face do problema.

Qual, então, a causa dos problemas de saúde?
Está crescendo muito a incidência de problemas de saúde, sejam emocionais ou biopsíquicos, decorrência da precarização do trabalho docente e, certamente, também é extensivo às demais categorias de trabalhadores da educação, como diretores, coordenadores pedagógicos, supervisores, técnicos e funcionários.
O processo de trabalho docente tem sofrido uma transformação muito grande nas últimas décadas, com o aumento da massa de trabalho - e às vezes até mesmo da jornada de trabalho -, que é acompanhado de significativa redução salarial, perda do prestígio da atividade profissional, etc.. Esse processo tem relação direta com a mercadorização da educação, que é uma das faces da privatização, e com a perda do controle do trabalho docente pelos educadores, com a introdução dos sistemas apostilados, ou de sistemas automatizados e informatizados de controle da educação. É praticamente o mesmo processo que os trabalhadores estão sofrendo com a automação da produção e que transforma quantitativa e qualitativamente o mundo do trabalho. A automação, quando introduzida na produção provoca, ao mesmo tempo, o desemprego para muitos e, por outro lado, um aumento no ritmo do trabalho, ampliando a massa da produção, mas também a exploração do trabalhador.
O problema do adoecimento dos trabalhadores da educação, notadamente os professores, como resultado da precarização do trabalho docente é muito séria e já é muito intensa a quantidade de estudos e pesquisas teóricas e empíricas sobre o tema, gerando uma grande quantidade de monografias, dissertações e teses.

É possível explicar fatores que contribuem para o aumento da violência?
A questão da violência na escola é complexa e, antes de fazermos qualquer afirmação, é preciso reconhecer que ela sempre existiu. É equivoco saudosista achar que antigamente não havia violência na escola. Analisando a educação historicamente, podemos constatar que em todos os períodos da história existiram casos de violência escolar, entre os alunos, de alunos para professores e violência de professores contra alunos.
Às vezes a narrativa de casos de violência aparentemente não foram registradas na história, mas a simples preocupação em estabelecer regras, normas e punições nas escolas já é indicador desses casos. A partir do momento que houve preocupação em estudar o cotidiano escolar, vários estudos se debruçaram sobre os "Livros de Ocorrência", e em algumas escolas até hoje existem, onde eram registrados os casos de brigas, violência, insubordinação, etc., desnudando que as várias faces da violência existiram e existem nas escolas, ontem e hoje.

Não há uma única causa?
Essa violência aumentou exponencialmente em toda a sociedade e, em decorrência, também na escola, nos postos de saúde, nas igrejas, nas casas, enfim em todos os espaços públicos e privados. Isso não é privilégio de uma cidade ou país, mas está ocorrendo de modo globalizado e praticamente conhecido em tempo real, qualquer que seja o local em que ocorre.
Não há uma causa ou um conjunto de fatores responsáveis pelo aumento da violência e pelo avanço da barbárie no mundo contemporâneo. Concordo com os estudos que indicam que os problemas que vivemos decorre de estarmos num novo ciclo de crise estrutural da sociedade, indicativa do esgotamento das normas, padrões e valores de nossa civilização, construída desde meados do século XV, e somente mais tarde denominada de capitalismo. O que está acontecendo é uma profunda crise civilizatória, e que envolve todas as relações humanas e sociais, todas as normas, todos os valores, todos os chamados "padrões" sociais que estão sendo questionados. Não se trata de crise em uma única dimensão da sociedade, como a econômica, a social, a política, a moral ou a lei, mas de todos esses aspectos e ao mesmo tempo.
A história que estudamos, seguindo o fio condutor que desembocou na nossa formação social, e que transmitimos aos nossos alunos, já deu conta disso. A humanidade já passou por outras crises semelhantes e que marcaram o fim de várias  civilizações e, em com a decadência de cada uma delas, em seu interior, foi se dando a construção de novas relações societárias que desembocaram em nova civilização, mais avançada e abrangente.
Também preciso registrar que o grande e recente aumento da violência na sociedade brasileira, de modo amplo, e na escola, particularmente, é uma decorrência do acirramento das contradições e polarizações em nossa formação social, com destaque para a cultura do ódio e da violência que vem tomando conta do Brasil e cujo principal plantio é dado pelo maior mandatário de nosso país. Não estou afirmando que o presidente inaugurou a cultura do ódio e da violência no país; estou afirmando é que, com ele, essa cultura recebeu estímulo, endosso e legitimação como nenhuma outra alta autoridade jamais realizou. O culto à violência tomou conta do cotidiano da sociedade brasileira e deu vazão à irracionalidade e subjetividade da manifestação pública e social da tortura, da homofobia, do machismo, da misoginia, da eliminação de inimigos e oponentes... Com a mão fazendo e apontando uma "arminha" é feita a naturalização da violência e da morte.

Diante do quadro, é possível proteger a escola?
Pode-se tomar uma série de medidas paliativas para minimizar a violência na escola. Para isso é preciso introduzir e cultivar relações societárias cooperativas e de respeito mútuo na educação e nas escolas. Deve-se implementar um ambiente de cooperação e de estabelecimento de regras claras de convivência social em todas as esferas da escola, pactuando (estabelecendo "combinados") de convivência e respeito entre todos os que atuam na escola, envolvendo inclusive a comunidade. A escola precisa ser parte integrante da comunidade e esta deve assumir, através de coletivos de pais de alunos, corresponsabilidade na formação das novas gerações. Isso, porém, não será fácil e nem simples.
Reconhecer a violência na escola implica entender e combater as relações de ódio e violência que assolam a nossa sociedade. E isso certamente exige de cada um e de todos nós (coletivamente), exercitar relações democráticas, republicanas, respeitosas e igualitárias em todos os ambientes que vivemos, do mais particular e privado (nossa própria casa e família), ao mais amplo e complexo (como nosso país, a humanidade e nosso planeta).

Com essas medidas, é possível reverter o quadro?
Isso não será simples e nem sei se, em vista do avanço da destruição humana, social e ambiental, haverá tempo para deter a bomba de destruição ambiental do mundo em que vivemos para aprendermos a cuidar mais e melhor do nosso mundo, de nossos próximos e de nós mesmos. Não há futuro algum se não houver uma profunda transformação da sociedade em que vivemos, pois a racionalidade irracional de contínua lucratividade está devorando bens que são ilimitados como a natureza (fonte de matérias-primas) e o homem (origem do trabalho e do próprio lucro). Não acredito que seja possível se chegar a uma produção sustentável sob o capitalismo. Mas como penso que o homem não coloca problemas que não possa resolver, é muito possível que o parto para uma nova civilização seja complicado, mas não impossível.


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