Prisma
Gazeta de Limeira

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por Rafael Sereno

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06/11/2018 - Colunas

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A última conversa

Mal havia saído o cortejo, naquela atmosfera lúgubre que é característica da reta final de um velório, um homem atarracado, com vassoura, balde, rodo e detergente nas mãos, se deslocou furtivamente para recinto, passando por detrás da multidão que saía em direção ao cemitério. Como eu o conhecia e antevi o que faria, decidi, não sei por que, movido pela curiosidade natural da profissão, me aproximar e puxar papo.
Parei no limiar da pequena sala e arrisquei a abordagem. Ele retribuiu, contente em ter com quem conversar enquanto fazia seu trabalho. Perguntei-lhe, então, sobre a família, o neto pequeno. Entre enxaguadas e vassouradas, entre pétalas perdidas e os descartes recolhidos deixados pelos vivos que ali passaram, ele abriu um largo sorriso, em especial quando falava do netinho. Não sem deixar de se concentrar no que fazia.
Nesta conversa, impossível de saber que seria a última, assisti como se limpa uma sala após o fim de um velório. Parecia, a princípio, não exigir muito além do necessário para limpar um cômodo qualquer, mas não é bem assim. Requer, também, calma espiritual de enorme grandeza, a certeza de que, embora toda a tristeza da passagem ainda teime em estar naquele local, a vida continua de um modo ou de outro e é necessário preparar o terreno para a sequência dela, ainda que esta seja a preparação da mesma sala para a próxima despedida, uma outra família enlutada. Era muito mais que uma limpeza, foi o que eu aprendi ali.

“Pereirinha” era conhecido por todos os repórteres limeirenses que tenham tido alguma experiência em cobertura policial. Trabalhando no setor funerário havia décadas, ele sempre aparecia nas piores horas para cumprir seu serviço. Nas minhas memórias, lá estava trabalhando diligentemente o homem baixinho no primeiro acidente de trânsito com morte que acompanhei, com meus poucos 23 anos de idade, quando um rapaz, voltando para casa, morreu após ser atingido por um ônibus. Outros colegas que, em seus trabalhos jornalísticos, tiveram de colher informações no Instituto Médico Legal (IML), guardam histórias marcantes das quais participaram Antônio Aparecido Pereira, que nos deixou na noite do último dia 31.

Quis o destino que a sua despedida tenha ocorrido num Dia de Finados, data para recordar aqueles que partiram. Ele que, invariavelmente, era conhecido por muitos limeirenses naqueles momentos que ninguém quer enfrentar, que não sabemos quando vai chegar. Nos minutos em que é necessária a presença de alguém para cumprir o trâmite penoso de lidar com a despedida. Nas horas em que, para que a vida prossiga, como naquela tarde três meses atrás, é preciso limpar o ambiente. Com a mesma dignidade com que ele fazia.

 

 


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